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RJ: jogadores tentam se livrar da atração das máquinas caça-níqueis

"Sinto ódio de jogo. Tentei brincar no celular, mas as lembranças das máquinas caça-níqueis que destruíram a minha vida me deram náusea. Deixava minha filha sozinha de madrugada e saía para apostar. O jogo me tirou tudo o que levei a vida inteira para construir". O desabafo emocionado de Z. S., 38 anos, sintetiza os dramas vividos por jogadores compulsivos em recuperação. Há três meses sem fazer apostas, ela chora ao revelar o sofrimento de quem se viciou em jogos de azar.

Uma denúncia da filha de uma idosa na semana passada - que levou a polícia a estourar um bingo clandestino, em Botafogo, no Rio de Janeiro - trouxe à tona o drama de viciados e suas famílias. Na maioria dos casos, é difícil para o apostador admitir que está doente. "Nunca imaginei que sofria de uma doença. Jogava desde os 12 anos. Ouvir o barulho da máquina era quase um orgasmo. A doença mata, deprime, afasta as pessoas que você ama. Apostei meu salário, pensão do meu filho, tudo o que tinha. Era tão obcecado que, quando meu cunhado morreu, passei dois anos apostando R$ 10 no número do túmulo dele. Nunca ganhei", conta C. R., 55 anos, que recuperou o casamento e o filho após dois anos e meio de tratamento.

Segundo Elizabeth Carneiro, psicóloga e supervisora do Programa de Transtorno do Impulso do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa da Misericórdia do Rio, o jogo começa como diversão ou uma forma de lidar com situações estressantes ou traumáticas. No entanto, pode virar dependência em pessoas que não têm habilidade para lidar com problemas.

"Tudo no jogo leva ao prazer, à socialização e à atenção que eles não têm na vida. Quando ganham, sentem-se privilegiados, sortudos. E aí, vão jogar até o último centavo e se endividar para manter o vício", explica a especialista.

"No auge do meu problema, estava com 22 empréstimos. Perdi um apartamento e meu salário não era suficiente para cobrir as dívidas", lembra M. A., 64 anos, que completará cinco de abstinência no dia 25.

Os caça-níqueis, que levam o estímulo mais rápido ao cérebro, são os que mais viciam, segundo a médica. "Quando a vida passa a girar em torno do jogo e a pessoa não consegue parar, por exemplo, são sinais da patologia. A família deve ficar atenta e procurar ajuda. A doença pode evoluir para altos níveis de ansiedade e depressão pelo desespero das dívidas", diz Elizabeth, frisando que 15% dos dependentes tentam suicídio.

Os relatos dos dramas vividos pelos jogadores compulsivos são variados, mas o desejo é um só: se livrar da doença.

Convite ao apostador era feito por telefone
O esquema descoberto pela polícia em Botafogo revelou que os donos de bingos clandestinos estimulam a dependência das pessoas. "Encontramos uma lista de quatro páginas, com contatos de dezenas de 'clientes'. A gerente ligava para aliciar as pessoas, oferecendo vantagens para elas jogarem", revelou o titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIm), Alessandro Thiers.

"Não adianta ter a ideia romântica de que bingo é diversão. É preciso encarar a realidade de que, muitas vezes, essas pessoas estão desenvolvendo doença que pode levar as famílias à ruína", afirma Thiers.

Investigações apontam que alguns bingos funcionavam em horários noturnos e até em prédios residenciais, tudo para despistar a repressão dos agentes. De acordo com a assessoria da Polícia Civil, a apreensão de caça-níqueis é uma das prioridades da gestão da atual chefe, Martha Rocha. Em dois meses de trabalho, 1.727 máquinas foram retiradas de circulação.

"Os jogadores parecem viver num mundo à parte, desplugados da realidade. Tanto que, quando estouramos esse casarão em Botafogo, um dos apostadores pediu: 'Espera só um minuto, delegado, que a minha máquina está acumulada!'", contou Thiers.

Porém, o foco do combate está nos donos das casas ilegais, e não nos jogadores. "Com os apostadores, fazemos um trabalho social, de conscientização da ilegalidade e da dependência."

O drama retratado na telinha
As dificuldades vividas pelas pessoas que não conseguem se livrar do jogo pararam na novela Insensato Coração. O jornalista Kléber Damasceno, interpretado pelo ator Cássio Gabus Mendes, mostra o drama de pessoas que, muitas vezes, nem desconfiam que sofrem da doença. No folhetim da Rede Globo, o personagem foi ao fundo do poço quando, sem recursos para apostar, roubou dinheiro da faxineira. Com o apoio da filha, ele entrou para o grupo Jogadores Anônimos.

Na vida real, a entidade promove encontros de dependentes para auxiliá-los na reabilitação. Lá, eles compartilham experiências, recebem orientações com 12 passos para se livrar do vício e encontram o apoio de pessoas que passaram pelos mesmos dramas.

Para os autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares, a abordagem da doença na novela retrata problema de milhares de brasileiros. "É necessário tratamento sério, monitoramento constante e apoio familiar", afirmaram os autores.

Fonte: Terra

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